A Evolução do Devido Processo Legal: Perspectivas para a Advocacia Pública
O princípio do devido processo legal, pilar fundamental do Estado Democrático de Direito, encontra-se em constante evolução, moldado por transformações sociais, avanços tecnológicos e, sobretudo, por uma jurisprudência cada vez mais atenta à garantia dos direitos fundamentais. Para os profissionais do setor público, compreender essa dinâmica é essencial para o exercício de suas funções com excelência e segurança jurídica.
A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 5º, inciso LIV, consagra o devido processo legal como um direito fundamental, asseverando que "ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal". Essa garantia, contudo, não se restringe a uma mera formalidade procedimental. Ela abrange a necessidade de um processo justo, equitativo e transparente, em que as partes tenham oportunidade de se manifestar, apresentar provas e ser ouvidas por um juiz imparcial.
A Dimensão Material do Devido Processo Legal
O devido processo legal, em sua dimensão material, transcende a mera observância de ritos e prazos. Ele exige que as decisões judiciais e administrativas sejam fundamentadas, razoáveis e proporcionais, respeitando os princípios da ampla defesa, do contraditório e da presunção de inocência. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF) tem reafirmado essa dimensão material, exigindo que o Estado, em suas ações, observe não apenas a legalidade estrita, mas também a justiça material.
A Lei nº 13.655/2018, que alterou a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB), reforçou a importância da dimensão material do devido processo legal no âmbito administrativo. A LINDB, em seu artigo 20, determina que "nas esferas administrativa, controladora e judicial, não se decidirá com base em valores jurídicos abstratos sem que sejam consideradas as consequências práticas da decisão". Essa exigência de análise das consequências práticas das decisões reforça a necessidade de um processo administrativo mais justo e equitativo, que leve em consideração o impacto das decisões na vida dos cidadãos.
A Era Digital e os Desafios para o Devido Processo Legal
A crescente digitalização da sociedade e do Estado impõe novos desafios para o devido processo legal. A utilização de inteligência artificial, algoritmos e ferramentas de automação na tomada de decisões judiciais e administrativas exige uma reflexão profunda sobre a garantia dos direitos fundamentais nesse novo contexto.
O STF tem se debruçado sobre essas questões, buscando conciliar a inovação tecnológica com a proteção dos direitos fundamentais. Em julgamento recente, a Corte reconheceu a constitucionalidade da utilização de inteligência artificial para auxiliar na triagem de processos, desde que garantida a transparência, a explicabilidade e a possibilidade de revisão humana das decisões tomadas por algoritmos.
A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), Lei nº 13.709/2018, também desempenha um papel fundamental na proteção do devido processo legal na era digital. A LGPD estabelece regras claras para o tratamento de dados pessoais, garantindo aos cidadãos o direito à informação, à transparência e ao controle sobre seus dados. A observância da LGPD é essencial para garantir que a utilização de tecnologias digitais no âmbito judicial e administrativo não viole a privacidade e os direitos fundamentais dos cidadãos.
Orientações Práticas para Profissionais do Setor Público
Para os profissionais do setor público, a constante evolução do devido processo legal exige atualização contínua e adoção de práticas que garantam a efetividade desse princípio em suas atividades:
- Fundamentação das Decisões: É fundamental que as decisões judiciais e administrativas sejam fundamentadas de forma clara, precisa e exaustiva, demonstrando os motivos que levaram à conclusão adotada. A fundamentação adequada permite o controle social e judicial das decisões, garantindo a transparência e a accountability.
- Ampla Defesa e Contraditório: A garantia da ampla defesa e do contraditório é essencial para um processo justo. Os profissionais do setor público devem assegurar que as partes tenham oportunidade de se manifestar, apresentar provas e contraditar os argumentos da parte contrária.
- Transparência e Explicabilidade: Na utilização de tecnologias digitais, como inteligência artificial e algoritmos, é fundamental garantir a transparência e a explicabilidade das decisões tomadas. As partes devem ter acesso às informações sobre como as tecnologias são utilizadas e quais os critérios adotados para a tomada de decisões.
- Atualização Contínua: A legislação e a jurisprudência sobre o devido processo legal estão em constante evolução. É fundamental que os profissionais do setor público se mantenham atualizados sobre as novidades, participando de cursos, seminários e lendo publicações especializadas.
Conclusão
O devido processo legal é um princípio vivo e dinâmico, que se adapta às transformações da sociedade e do Estado. Para os profissionais do setor público, a compreensão dessa dinâmica e a adoção de práticas que garantam a efetividade desse princípio são essenciais para o exercício de suas funções com excelência e segurança jurídica. A constante atualização, a observância da jurisprudência e a atenção aos desafios impostos pela era digital são fundamentais para garantir que o devido processo legal continue a ser um pilar fundamental do Estado Democrático de Direito.
Aviso: Este artigo tem caráter informativo e didático. Deve ser verificado e adaptado a cada caso concreto por profissional habilitado. Acesse minuta.tech para mais recursos.