A assistência jurídica integral e gratuita, consagrada como direito fundamental na Constituição Federal de 1988 (art. 5º, LXXIV), transcende a mera isenção de custas judiciais. Representa a garantia de acesso à justiça em sua plenitude, englobando orientação, acompanhamento e defesa em todas as instâncias e esferas (judicial, extrajudicial e administrativa). Este artigo visa aprofundar o tema, direcionado a operadores do direito no setor público, oferecendo embasamento legal, jurisprudencial e modelos práticos para a atuação na área.
A Defensoria Pública, instituição essencial à função jurisdicional do Estado, atua como principal instrumento de concretização deste direito, assegurando a defesa dos necessitados. A evolução legislativa e jurisprudencial reforça a abrangência da assistência jurídica, adaptando-a às demandas contemporâneas e fortalecendo o papel da Defensoria Pública na promoção da cidadania e da justiça social.
Fundamentação Legal e Normativa
A Constituição Federal de 1988 estabelece o alicerce da assistência jurídica integral e gratuita.
Art. 5º, LXXIV: O Estado prestará assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos.
A Lei Complementar nº 80/1994 (Lei Orgânica Nacional da Defensoria Pública) detalha a organização e o funcionamento da instituição, definindo suas atribuições e princípios institucionais. A referida lei, atualizada pela Lei Complementar nº 132/2009, ampliou as funções da Defensoria Pública, incluindo a tutela coletiva, a atuação em demandas extrajudiciais e a promoção dos direitos humanos.
Art. 4º, LC 80/94: São funções institucionais da Defensoria Pública, dentre outras. I – prestar orientação jurídica e exercer a defesa dos necessitados, em todos os graus;
II – promover, prioritariamente, a solução extrajudicial dos litígios, visando à composição entre as pessoas em conflito de interesses, por meio de mediação, conciliação, arbitragem e demais técnicas de composição e administração de conflitos;
VII – promover ação civil pública e todas as espécies de ações capazes de propiciar a adequada tutela dos direitos difusos, coletivos ou individuais homogêneos quando o resultado da demanda puder beneficiar grupo de pessoas hipossuficientes;
A Lei nº 1.060/1950, que estabelecia normas para a concessão de assistência judiciária, foi em grande parte revogada e absorvida pelo Código de Processo Civil de 2015 (Lei nº 13.105/2015). O CPC/2015 dedica o Capítulo II (arts. 98 a 102) à gratuidade da justiça, regulamentando seus requisitos, abrangência e impugnação.
Art. 98, CPC/2015: A pessoa natural ou jurídica, brasileira ou estrangeira, com insuficiência de recursos para pagar as custas, as despesas processuais e os honorários advocatícios tem direito à gratuidade da justiça, na forma da lei.
A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ) consolida o entendimento sobre a abrangência da assistência jurídica. Súmulas e precedentes reforçam a autonomia da Defensoria Pública, a dispensa de procuração e a possibilidade de condenação em honorários sucumbenciais em favor da instituição.
Súmula 463/TST: I – A partir de 26.06.2017, para a concessão da assistência judiciária gratuita à pessoa natural, basta a declaração de hipossuficiência econômica firmada pela parte ou por seu advogado, desde que munido de procuração com poderes específicos para esse fim (art. 105 do CPC de 2015); II – No caso de pessoa jurídica, não basta a mera declaração: é necessária a demonstração cabal de impossibilidade de arcar com as despesas do processo.
Súmula 481/STJ: Faz jus ao benefício da justiça gratuita a pessoa jurídica com ou sem fins lucrativos que demonstrar sua impossibilidade de arcar com os encargos processuais.
Abrangência e Requisitos
A assistência jurídica integral abrange diversas esferas de atuação:
- Orientação Jurídica: Prestação de informações e esclarecimentos sobre direitos e deveres, visando à prevenção de litígios e à conscientização cidadã.
- Atuação Extrajudicial: Mediação, conciliação e negociação, buscando a resolução célere e pacífica de conflitos, sem a necessidade de judicialização.
- Atuação Judicial: Defesa em processos cíveis, criminais, trabalhistas, previdenciários, administrativos, entre outros, em todas as instâncias.
- Tutela Coletiva: Ajuizamento de ações civis públicas para a proteção de direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos.
- Educação em Direitos: Promoção de palestras, cursos e campanhas de conscientização sobre direitos fundamentais e o acesso à justiça.
O principal requisito para a concessão da assistência jurídica gratuita é a insuficiência de recursos. A comprovação dessa condição varia de acordo com a legislação e a jurisprudência. Em regra, a declaração de hipossuficiência firmada pela parte ou por seu advogado goza de presunção relativa de veracidade (art. 99, § 3º, CPC/2015). No entanto, o juiz pode exigir a comprovação da alegada insuficiência, mediante a apresentação de documentos (comprovantes de renda, declaração de imposto de renda, etc.).
A Defensoria Pública, por sua vez, estabelece critérios próprios de atendimento, baseados em limites de renda familiar e patrimônio, visando priorizar o atendimento aos mais necessitados. Esses critérios são definidos em resoluções e regulamentos internos de cada unidade federativa.
Modelos Práticos
Abaixo, apresentamos modelos práticos para auxiliar na rotina de defensores públicos e demais operadores do direito que atuam na assistência jurídica integral e gratuita.
Modelo 1: Declaração de Hipossuficiência
DECLARAÇÃO DE HIPOSSUFICIÊNCIA ECONÔMICA
Eu, [Nome completo], [Nacionalidade], [Estado civil], [Profissão], portador(a) do RG nº [Número do RG] e do CPF nº [Número do CPF], residente e domiciliado(a) na [Endereço completo], DECLARO, para os devidos fins de direito, sob as penas da lei, que não possuo condições financeiras de arcar com as custas, despesas processuais e honorários advocatícios sem prejuízo do meu próprio sustento e de minha família.
Por esta razão, requeiro a concessão dos benefícios da Justiça Gratuita, nos termos do art. 5º, LXXIV, da Constituição Federal e do art. 98 e seguintes do Código de Processo Civil.
[Local], [Data].
[Assinatura]
Modelo 2: Petição Inicial com Pedido de Justiça Gratuita (Exemplo: Ação de Alimentos)
EXCELENTÍSSIMO SENHOR JUIZ DE DIREITO DA [Vara] VARA DE FAMÍLIA DA COMARCA DE [Cidade/Estado]
[Nome do requerente], menor impúbere, representado por sua genitora [Nome da genitora], [Qualificação completa da genitora], por intermédio da Defensoria Pública do Estado de [Estado], vem, respeitosamente, à presença de Vossa Excelência, propor. AÇÃO DE ALIMENTOS
em face de [Nome do requerido], [Qualificação completa do requerido], pelos fatos e fundamentos a seguir expostos. I. DOS FATOS
(Descrever os fatos que fundamentam o pedido de alimentos, como a filiação, a necessidade do alimentando e a possibilidade do alimentante).
II. DO DIREITO
(Fundamentar o pedido com base na legislação pertinente, como o Código Civil e a Lei de Alimentos).
III. DA JUSTIÇA GRATUITA E DAS PRERROGATIVAS DA DEFENSORIA PÚBLICA
A parte autora declara, sob as penas da lei, que não possui condições financeiras de arcar com as custas processuais e honorários advocatícios sem prejuízo de seu sustento e de sua família, fazendo jus, portanto, aos benefícios da Justiça Gratuita, nos termos do art. 5º, LXXIV, da Constituição Federal e do art. 98 do CPC/2015.
Requer-se, ainda, a observância das prerrogativas da Defensoria Pública, notadamente a intimação pessoal, a contagem de prazos em dobro (art. 186, CPC/2015) e a isenção de preparo e custas.
IV. DOS PEDIDOS
Diante do exposto, requer: a) A concessão dos benefícios da Justiça Gratuita;
b) A fixação de alimentos provisórios no valor de [Valor];
c) A citação do requerido para, querendo, apresentar contestação;
d) A intimação do Ministério Público;
e) A procedência do pedido, condenando o requerido ao pagamento de alimentos definitivos no valor de [Valor];
f) A condenação do requerido ao pagamento de honorários sucumbenciais em favor do Fundo de Aparelhamento da Defensoria Pública (FADEP/ [Estado]).
Dá-se à causa o valor de R$ [Valor correspondente a 12 parcelas mensais].
Termos em que, Pede deferimento.
[Local], [Data].
[Nome do Defensor Público] Defensor Público OAB/[Estado] nº [Número]
Modelo 3: Contestação com Pedido de Justiça Gratuita
EXCELENTÍSSIMO SENHOR JUIZ DE DIREITO DA [Vara] VARA CÍVEL DA COMARCA DE [Cidade/Estado]
Processo nº [Número do processo]
[Nome do requerido], [Qualificação completa do requerido], por intermédio da Defensoria Pública do Estado de [Estado], vem, tempestivamente, apresentar. CONTESTAÇÃO
à Ação [Nome da Ação] proposta por [Nome do requerente], pelos fatos e fundamentos a seguir expostos. I. DA JUSTIÇA GRATUITA E DAS PRERROGATIVAS DA DEFENSORIA PÚBLICA
(Repetir o tópico III do Modelo 2).
II. DAS PRELIMINARES
(Se houver preliminares, como inépcia da inicial, ilegitimidade de parte, etc., alegá-las neste tópico).
III. DO MÉRITO
(Rebater os argumentos da petição inicial, apresentando a versão dos fatos do requerido e a fundamentação jurídica pertinente).
IV. DOS PEDIDOS
Diante do exposto, requer: a) A concessão dos benefícios da Justiça Gratuita;
b) O acolhimento das preliminares suscitadas, extinguindo-se o processo sem resolução do mérito;
c) Caso ultrapassadas as preliminares, a total improcedência dos pedidos formulados na petição inicial;
d) A condenação da parte autora ao pagamento de custas processuais e honorários advocatícios em favor do Fundo de Aparelhamento da Defensoria Pública (FADEP/ [Estado]);
e) A produção de todas as provas admitidas em direito, em especial [Especificar as provas].
Termos em que, Pede deferimento.
[Local], [Data].
[Nome do Defensor Público] Defensor Público OAB/[Estado] nº [Número]
Conclusão
A assistência jurídica integral e gratuita constitui pilar fundamental do Estado Democrático de Direito, assegurando o acesso à justiça aos mais vulneráveis. A atuação efetiva da Defensoria Pública, respaldada pela legislação e jurisprudência, é crucial para a garantia deste direito. Os modelos apresentados visam facilitar a prática forense, contribuindo para a defesa célere e eficiente dos interesses dos hipossuficientes. O aprimoramento contínuo das normativas e a consolidação de entendimentos jurisprudenciais fortalecem a instituição e ampliam o alcance da justiça social no Brasil.
Aviso: Este artigo tem caráter informativo e didático. Deve ser verificado e adaptado a cada caso concreto por profissional habilitado. Acesse minuta.tech para mais recursos.