A atuação da Defensoria Pública no atendimento ao preso é um dos pilares da garantia de acesso à justiça e da efetivação dos direitos fundamentais da população carcerária, um grupo historicamente vulnerável e marginalizado. A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 5º, inciso LXXIV, consagra a assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos, incumbindo à Defensoria Pública essa nobre missão (art. 134, CF/88). No contexto prisional, essa assistência transcende a mera defesa técnica em processos criminais, abrangendo a proteção da dignidade humana, a fiscalização das condições de encarceramento e a busca pela ressocialização.
Este artigo se propõe a analisar o atendimento ao preso pelas Defensorias Públicas, destacando os desafios enfrentados, as inovações recentes e a importância de uma atuação proativa e estratégica para a garantia dos direitos da população privada de liberdade.
O Papel da Defensoria Pública no Sistema Prisional
A Lei de Execução Penal (LEP - Lei nº 7.210/1984), em seu artigo 15, estabelece que a assistência jurídica é devida aos presos e aos internados sem recursos financeiros para constituir advogado. A Defensoria Pública, como instituição essencial à função jurisdicional do Estado, assume a responsabilidade de prestar essa assistência, atuando em diversas frentes.
Defesa Técnica em Processos Criminais e de Execução Penal
A atuação mais evidente da Defensoria Pública no sistema prisional é a defesa técnica em processos criminais, desde a fase de inquérito policial até o trânsito em julgado da sentença. Além disso, a Defensoria Pública atua na fase de execução penal, acompanhando o cumprimento da pena, requerendo progressão de regime, livramento condicional, indulto, comutação de pena, entre outros benefícios. A atuação da Defensoria Pública é fundamental para garantir o respeito ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa, evitando prisões arbitrárias e penas desproporcionais.
Fiscalização das Condições de Encarceramento
A Defensoria Pública tem o dever de fiscalizar as condições de encarceramento, denunciando violações de direitos humanos e buscando a responsabilização do Estado por eventuais falhas. A superlotação, a falta de higiene, a precariedade da assistência à saúde, a ausência de oportunidades de trabalho e estudo, entre outros problemas, são objeto de constante atenção da Defensoria Pública, que atua por meio de inspeções, recomendações, ações civis públicas e outras medidas judiciais e extrajudiciais.
Atendimento Psicossocial e Orientação Jurídica
A Defensoria Pública oferece atendimento psicossocial e orientação jurídica aos presos e seus familiares, esclarecendo dúvidas sobre o andamento dos processos, os direitos e deveres dos detentos, as regras de visitação, entre outros assuntos. Esse atendimento é fundamental para reduzir a ansiedade e a incerteza dos presos e de seus familiares, promovendo o acesso à informação e a cidadania.
Promoção da Ressocialização
A Defensoria Pública atua na promoção da ressocialização dos presos, buscando a inserção social e a redução da reincidência. A instituição atua em parceria com outras entidades governamentais e não governamentais para oferecer oportunidades de trabalho e estudo, qualificação profissional, assistência à saúde, entre outros serviços que contribuam para a reintegração dos egressos do sistema prisional à sociedade.
Desafios e Obstáculos
Apesar da importância de sua atuação, a Defensoria Pública enfrenta diversos desafios e obstáculos no atendimento ao preso.
Superlotação e Falta de Estrutura
O sistema prisional brasileiro é caracterizado pela superlotação e pela falta de estrutura, o que dificulta o acesso da Defensoria Pública aos presos e a realização de um atendimento individualizado e de qualidade. A falta de salas de atendimento adequadas, a escassez de recursos humanos e materiais, e a dificuldade de comunicação com os presos são alguns dos problemas enfrentados pelos defensores públicos no dia a dia.
Burocracia e Morosidade do Sistema de Justiça
A burocracia e a morosidade do sistema de justiça também dificultam a atuação da Defensoria Pública, atrasando o andamento dos processos e a concessão de benefícios aos presos. A falta de informatização e a dificuldade de acesso a informações e documentos também são obstáculos a serem superados.
Preconceito e Estigmatização
Os presos e seus familiares frequentemente sofrem com o preconceito e a estigmatização, o que dificulta o acesso aos serviços públicos e a reintegração à sociedade. A Defensoria Pública tem o desafio de combater o preconceito e promover a conscientização sobre os direitos da população carcerária, buscando humanizar o sistema prisional e reduzir a discriminação.
Inovações e Boas Práticas
Para superar os desafios e melhorar o atendimento ao preso, a Defensoria Pública tem buscado inovações e boas práticas.
Atendimento Virtual e Telepresencial
A pandemia de COVID-19 acelerou a adoção de tecnologias de atendimento virtual e telepresencial, permitindo que a Defensoria Pública mantenha o contato com os presos mesmo diante das restrições de acesso às unidades prisionais. Essa modalidade de atendimento tem se mostrado eficaz e eficiente, reduzindo os custos e o tempo de deslocamento, e ampliando o acesso à justiça.
Mutirões de Atendimento e Ações Itinerantes
Os mutirões de atendimento e as ações itinerantes são estratégias importantes para ampliar o acesso da Defensoria Pública aos presos, especialmente em unidades prisionais mais distantes e com maior déficit de atendimento. Essas ações permitem que os defensores públicos realizem um grande volume de atendimentos em um curto período de tempo, prestando orientação jurídica e encaminhando demandas.
Parcerias e Convênios
A Defensoria Pública tem buscado parcerias e convênios com outras instituições públicas e privadas para ampliar a oferta de serviços aos presos e egressos do sistema prisional. Parcerias com universidades, organizações da sociedade civil, empresas e órgãos governamentais têm permitido a oferta de cursos de capacitação, assistência à saúde, apoio psicossocial, entre outros serviços que contribuem para a ressocialização.
Fundamentação Legal e Jurisprudencial
A atuação da Defensoria Pública no atendimento ao preso é fundamentada na Constituição Federal de 1988, na Lei de Execução Penal (Lei nº 7.210/1984), na Lei Complementar nº 80/1994 (Lei Orgânica Nacional da Defensoria Pública) e em outras normas e tratados internacionais de direitos humanos.
Jurisprudência
O Supremo Tribunal Federal (STF) tem reconhecido a importância da atuação da Defensoria Pública no sistema prisional, garantindo o acesso à justiça e a proteção dos direitos fundamentais da população carcerária. Em diversas decisões, o STF tem reafirmado o dever do Estado de fornecer assistência jurídica integral e gratuita aos presos sem recursos financeiros, e tem determinado a adoção de medidas para combater a superlotação e as violações de direitos humanos no sistema prisional.
Normativas Recentes (até 2026)
Em 2024, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicou a Resolução nº 520, que estabelece diretrizes para o aprimoramento do atendimento jurídico e da assistência social aos presos e internados. A resolução reforça a importância da Defensoria Pública no sistema prisional e determina a adoção de medidas para garantir o acesso à justiça, a humanização do atendimento e a promoção da ressocialização.
Em 2025, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) lançou o Plano Nacional de Política Criminal e Penitenciária (PNPCP), que estabelece metas e ações para a melhoria do sistema prisional brasileiro. O plano inclui medidas para fortalecer a atuação da Defensoria Pública, ampliar o acesso à justiça e promover a ressocialização dos presos e egressos do sistema prisional.
Conclusão
O atendimento ao preso pela Defensoria Pública é fundamental para a garantia do acesso à justiça e a efetivação dos direitos fundamentais da população carcerária. Apesar dos desafios e obstáculos enfrentados, a Defensoria Pública tem buscado inovações e boas práticas para aprimorar o atendimento e promover a ressocialização dos presos. A atuação proativa e estratégica da Defensoria Pública é essencial para a construção de um sistema prisional mais justo, humano e eficaz, que respeite a dignidade humana e contribua para a redução da criminalidade e a promoção da paz social.
Aviso: Este artigo tem caráter informativo e didático. Deve ser verificado e adaptado a cada caso concreto por profissional habilitado. Acesse minuta.tech para mais recursos.